Depois de comprar os lenços e ficar a caráter para chegar ao deserto, o carro parou mais uma vez e o motorista disse para pegarmos nossas mochilas e os outros pertences, descemos no meio de um “estacionamento” de camelos. Após dez horas de viagem dentro da van, seguiríamos mais uma parte do trajeto andando de camelo. Não faltava mais nada para me sentir dentro de um filme. Estar a caminho do deserto, vestido como um árabe em cima de um camelo, a viagem me surpreendia cada vez mais.
Subimos cada um no seu camelo, eles estavam amarrados uns aos outros em duas fileiras, onze animais no total, e dois homens puxando os bichos no inicio da fila.
A sensação de andar a camelo não é das mais confortáveis que existe, mas tudo faz parte para entrar no clima dessa experiência. É mais desconfortável que uma bicicleta, balança mais que uma moto velha e é duas vezes mais alto que um cavalo.
A diferença com o cavalo é que não tinha cela e nem onde apoiar os pés. Em cima do camelo tinha uma estrutura de ferro onde segurávamos, e um saco de areia com um cobertor que íamos sentado em cima.
Seguimos andando por uma hora, e pelo caminho não faltaram risadas e gritos de “ai minha perna” e “o que eu to fazendo aqui”, mas foi muito divertido, uma experiência única e indescritível, somente quem já passou por isso sabe como estávamos nos sentido. No meio do caminho um dos camelos se soltou do outro e fiquei para traz, mas logo veio um dos homens que estava puxando no inicio e nos colocou de volta na fila. Com isso nos juntamos a outros grupos que estavam no mesmo passeio que o nosso, e como não poderia deixar se acontecer encontramos mais brasileiros.
Começou a anoitecer e ainda não havíamos chegado a lugar nenhum. Iríamos passar uma noite dormindo no deserto do Saara e no dia seguinte voltaríamos para a cidade.
Quando ninguém mais agüentava estar em cima dos camelos eles pararam e de um em um foram fazendo os camelos deitarem (na posição em que fica no presépio). Como as patas são muito grandes, o animal deita em duas partes, primeiro fica com os joelhos da frente no chão e depois as patas de traz, esse movimento da um tranco, e quem não estiver segurando firme, e mais desavisado pode cair no chão.
O céu estava escuro e não tinha luz nenhuma no lugar, improvisamos luz com as maquinas fotográficas e com os celulares, que surpreendentemente estavam com sinal para fazer ligação do meio do deserto.
Os grupos foram levados cada um para sua tenda, assim que chegamos à nossa, descobrimos que iríamos dormir no chão. Cada barraca tinha colchonete, cobertor e travesseiro para cada um. Banheiro não existia, era preciso usar a criatividade para se aliviar. Nossa sorte é que havíamos levado muitas garrafas de água e algumas barras de chocolate.
Depois de nos acomodar da maneira que dava e dividir onde cada um iria dormir, entrou na nossa tenda um beduíno, aquelas pessoas que vivem no deserto, nos deu as boas vindas e disse algumas palavras em árabe e outras em inglês. Depois ele voltou e nos serviu um chá, que era cheiroso, mas estava muito quente. Enquanto ele colocava o chá nos copos e nos servia, falava um nome árabe para cada um de nós, o meu foi Mohamed.
Depois do chá ele voltou com o jantar. Erram umas panelas de barro cobertas com uma tampa. Dentro da tenda tínhamos um lampião, que além de iluminar um pouco esquentava a barraca. Como a luz era pouca, não enxergávamos muito bem a limpeza ou a falta delas, o negocio era fechar o olho e comer o que tinha. O jantar foi pão, sopa, salada e frango com batata e verduras. O tempero é um pouco forte, mas o sabor é agradável. A sujeira do lugar dava um temperinho especial.
Após comer eles nos avisaram que teria uma apresentação de música ao redor da fogueira. Quando eu sai da barraca me surpreendi com a quantidade de estrelas que tinha no céu, nunca tinha visto daquela maneira. Conforme olhávamos atentamente as constelações vimos algumas estrelas cadentes.
No show que eles faziam ao redor da fogueira, batucavam em uns tambores de plástico e cantavam as músicas na língua dele, que não entendíamos nada, apenas ouvíamos o ritmo. Tudo estava fascinante, eu ainda me sentia no meio de um filme, mas o clima de deserto acabou quando tocou o celular de um dos beduínos que estava cantando e ele parou de batucar e saiu para atender o telefone.
Os brasileiros eram maioria, e como onde tem brasileiro tem festa, pegamos os tambores e batucamos e cantamos algumas musicas brasileiras famosas. Depois do nosso show voltamos a nossa tenda para dormir.
O mesmo homem que serviu o jantar e foi atender o celular, veio nos dizer para apagar o lampião durante a noite. Fizemos e nos arrependemos. Durante a madrugada faz muito frio no deserto, e estávamos dentro de uma tenda de pano, com um cobertor cada um. Eu dormi com duas calças e três camisetas e o moletom com o gorro por cima. Se não tivéssemos apagado o lampião talvez não sentisse tanto frio.
O dia seguinte começou cedo novamente, fomos acordados com eles cantando as músicas do dia anterior, mas como fazia muito frio ninguém tinha vontade de fazer nada e nem sair de baixo das cobertas. Mas criamos coragem, levantamos e saímos de dentro das barracas para ver o deserto pela primeira vez, até então estava tudo escuro e não conseguíamos enxergar muito longe. Do lado de fora havia uma mesa com um café da manhã, com leite, chá, pão e manteiga.
A paisagem é muito bonita, com dunas em todos os cantos, umas maiores outras pequenas, depois de comer fomos tirar fotos em meio à areia. Durante o dia e com a luz da para entender como cada um usou a criatividade para ir ao banheiro.
Andávamos, pulávamos e tirávamos muitas fotos. Queria registrar tudo, mas minha decepção foi quando a bateria da minha câmera acabou, e tomada era a última coisa que existiria num lugar deste, porém estávamos em muitas pessoas e haviam outras máquinas para fotografar.
Depois de tirar muitas fotos, já fomos avisados que teríamos que voltar. E lá se foram mais uma hora andando de camelo até chegar a van e mais dez horas dentro do carro, na mesma estrada com curvas perigosas para voltar para a cidade.
No meio do caminho tivemos algumas outras surpresas, em uma das paradas que fizemos para tirar foto, havia um senhor sentado ao lado de uma caixa de madeira e outro vendendo quadros com pinturas do deserto. Juntamos-nos para tirar fotos, a paisagem era incrível, parecia que tudo havia sido montado para estarmos ali. Depois de tirar a foto e quando estávamos voltando para a van, olhamos para o senhor que estava sentado ao lado da caixa, e ele tirou de dentro dela uma Naja. Pegava a cobra, dançava, colocava em volta do pescoço, colocava na testa, beijava. E observando aquela cena inusitada, não dava para saber quem estava enfeitiçado, o senhor ou a cobra. Esse sim merecia os vinte euros pela foto.
Chegamos à noite em Marrekech, ainda tínhamos pouco tempo para fazer as últimas compras e no dia seguinte pegar o avião de volta para Madrid.
Essa experiência foi única, surpreendente e fascinante, levarei comigo para a vida toda.
Faria tudo novamente, menos pagar os vinte euros pela foto do macaco.
Não tem como voltar de uma viagem como esta igual a quando chegamos. É uma experiência de vida, onde testamos os nossos limites e percebemos o tão longe conseguimos chegar. Depois de sair vivo desta creio que não exista nenhum obstáculo que eu não possa superar.
Passei a dar muito mais valor a que eu tenho agora, depois de ver tantas pessoas vivendo sem nada, nunca poderia imaginar que existissem pessoas que vivessem no meio do deserto, no meio no nada, e nós com tantas coisas ainda encontramos motivos para reclamar.