Desembarcar no aeroporto de Marrakech no Marrocos é como descer de uma nave em outro planeta há duzentos anos atrás.
Após descer do avião, passar pelo raio x e pela policia tive que me habituar aos poucos com o lugar em que estava. Tudo era completamente diferente. Ainda no aeroporto trocamos o dinheiro, 1 euro, valem 11 Dirham, dinheiro do Marrocos, com 140 euros eu tinha pouco mais de 1.340 Dirham. Saindo do aeroporto e vendo uma das avenidas da cidade já impressionava pelo trânsito caótico, porém o mais impressionante mesmo foi ver uma mulher com a burca pela primeira vez. Elas andam pelas ruas cobertas dos pés a cabeça, somente com os olhos enigmáticos aparecendo. Olhos que ao mesmo tempo expressão muito e não dizem nada. Buscamos um taxi para chegar até o nosso albergue, estávamos em onze pessoas, e subimos em 6 dentro de um carro. Andando pela cidade a bagunça no trânsito era pior que São Paulo e a pobreza nas calçadas chamavam muito atenção.
Algum tempo depois o motorista do táxi disse que o endereço que buscávamos estava perto, mas que o carro não passava pelas ruas, teríamos que seguir andando. Tínhamos um mapa e o nome da rua nas mãos e fomos procurando o lugar. Andamos por ruas, becos e vielas e não encontrávamos o nosso hostel. Perguntei para uma senhora que olhou o papel e começou a resmungar em árabe, lá as mulheres não sabem ler nem escrever, e elas não podem falar com outro homem a não ser seu marido. Quando nos aproximamos de outra para perguntar a ela o endereço, logo um rapaz de bicicleta veio e disse que não conhecia o nome da rua. Andávamos de um lado para o outro sem saber o que fazer. Estávamos em um país completamente diferente do nosso, com uma língua estranha e costumes inusitados.
Nessa hora o instinto de sobrevivência fala mais alto, eu tinha certeza que mais cedo ou mais tarde encontraríamos o que estávamos buscando, e torcendo para que fosse o quanto antes. Todos os turistas que víamos pela rua perguntávamos sobre o nosso endereço na esperança que alguém conhece-se o lugar em que iríamos dormir, mas nada, os que nos entendiam pouco podiam ajudar. Depois de muito tempo andando sem rumo um senhor se prontificou a nos ajudar, um francês que falava um pouco de inglês disse para que nos o acompanha-se, porem depois de andarmos muito não encontramos o nosso albergue, foi quando um senhor perguntou aonde iríamos e quando mostramos o endereço a ele nos disse que já havia trabalhado nesse lugar. Nos acompanhou ate a porta do albergue, e percebemos que já havíamos passado por esse lugar algumas vezes. A recompensa foi grande, quando entramos no albergue parecia cenário de novela, com mosaicos pelas paredes e portas típicas de filme. Um funcionário nos levou até o terraço para esperarmos porque os nossos quartos ainda não estavam prontos. Do lugar em que estávamos tínhamos uma vista de grande parte da cidade.
Depois de um tempo esperando o funcionário do lugar nos serviu um chá. La eles não tem nada, mas o pouco que possuem dividem com os turistas e não medem esforços para nos agradar. Ele nos disse que a noite haveria um casamento típico no restaurante, foi ai que eu comecei a entender o lugar em que estávamos, era um quarto nos fundos de um restaurante. Nada com muito luxo ou muito conforto, apenas um lugar para passar a noite. Dentro do quarto havia três camas e um banheiro, que não tinha porta, e tudo era muito baixo, tinha que me policiar para não bater a cabeça no teto. Depois de deixarmos as coisas no quarto fomos conhecer o centro da cidade, mas a essa hora todos já estávamos com muita fome, decidimos almoçar McDonalds, pois ainda não sabíamos como era a comida de lá e limpeza percebi que não havia em nenhum lugar.
Andando pelas ruas ao redor do lugar em que estávamos me senti em meio a uma grande favela, onde nenhum serviço básico, como o esgoto, parecia existir. Muitos velhos ficam sentados pelas ruas pedindo esmola, alguns expõem doenças na face e pelo corpo que impressionam ao primeiro olhar. A rua não tinha asfalto, era terra batida, e tudo era muito empoeirado. Andamos até uma praça onde pegamos um táxi, e novamente 6 pessoas no mesmo carro, e chegamos ao McDonalds, típico ponto para encontrar turista em qualquer lugar do mundo, o lanche é muito parecido com o Brasil, a exceção é o Mc Arábia, um lanche com pão sírio e carne moída (que eu pensei ser carne de camelo, mas não era).
Quando saímos do restaurante vimos uma discussão na rua entre duas mulheres e muitas pessoas envolta observando. Andei pela avenida principal da cidade, e a cada placa que via na rua estava escrita em árabe e com tradução em francês o que não nos ajudava muito. Seguimos ate uma mesquita, um lugar que eles têm muito respeito e é o cartão postal da cidade. Chegamos até a praça de comércio da cidade onde haviam muitos animais soltos (e merecem um post só sobre eles).
Depois de andar muito, o choque cultural é gigantesco, os costumes, tudo era completamente diferente do que eu estava acostumado, mas foi um aprendizado incrível. Voltamos para o hostel, porém dessa vez havíamos esquecido o mapa com o nome e tudo mais em cima da cama, andamos por horas e horas até encontrar novamente o albergue. Mais uma vez o instinto de sobrevivência fala mais alto, e temos que estar preparados para todas as adversidades de uma viagem como essa.
Higiene é uma coisa que eles não possuem, entre os becos e vielas havia algumas ruas de comércio e a cada portinha uma infinidade de produtos diferentes, em meio aos carros que passavam e as motos, as bicicletas, os cachorros, os burros de carga, um caos!
Como o nosso dinheiro vale muito mais que o deles, pechinchar os preços é imprescindível para fazer boas compras, por indicação de outros brasileiros que encontramos na viagem, achamos um guia que nos levou em uns becos onde eles vendiam as mercadorias para os ambulantes revenderem. Se um colar custa 50 Dirhans, eles pedem 200 Dirhans, e nós oferecemos cinqüenta, eles dizem que é pouco, e ai começa a negociação e vence o mais forte, quanto mais firme somos na nossa oferta mais eles vão reduzindo os preços. Depois de um tempo se torna divertido negociar com os vendedores, sempre oferecemos o mais baixo possível, ou pegamos algo com as mãos olhamos, olhamos, falamos: “não quero” e saímos, ai o vendedor vem atrás e reduz o preço, e assim segue em cada loja.
A frase que mais me marcou durante a viagem, foi dentro de uma dessas lojas que vendem suvenires típicos marroquinos, eu perguntei o preço de uma caixa de madeira e disse que era estudante brasileiro, que não tinha dinheiro, que era pobre e era do Brasil, foi quando o vendedor olhou nos meus olhos e respondeu, “Marrocos é pobre, Marrocos não tem dinheiro, Brasil rico”. Olhei para ele engoli seco e refleti muito com essa frase.
Nós vivemos com tanto, e sempre encontramos problemas em nossas vidas e eles vivem sem nada e vivem, vivem sem perspectiva nenhuma de futuro, levam a vida ao acaso, não fazem planos.
Todos expressam no rosto muito sofrimento, e desilusão, é um povo esquecido. Para nós que estamos acostumados com tantas regalias e tecnologias, e eles não possuem nada de moderno, nada de novo, tudo é muito antigo, velho, porém tudo é muito impressionante. Estar por esse período na cidade foi à experiência mais enriquecedora da minha vida.
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